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O mundo ao qual não pertence

 
Uma das minhas séries prediletas atualmente é "O.C. - O mundo ao qual não pertence.", exibida pela Warner. Fala sobre o Ryan, um garoto pobre que vai morar no exclusivérrimo bairro O.C., e mostra todo o sentimento de inadequação e todo o absurdo de uma vida rica e fútil na perspectiva de alguém de fora. Isso além da evidente capacidade do personagem de fazer com tudo dê errado o tempo todo. Curiosamente, tenho me sentido assim nos últimos tempos.
 


O.C. - O mundo ao qual não pertence.
 
A família da minha mãe é de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, uma simpática cidade agro-industrial de 400.000 habitantes. Carnaval, total pavor das bandinhas que empestiam minha rua, resolvemos (eu e uma amiga) ir pra lá rever a família e pular no ambiente civilizado dos clubes.
 


Pôr-do-sol em Rio Preto.
 
Muita gente acha que o interior do país é simplório e atrasado. Rio Preto não tem nada de roça: a cidade é muitíssimo desenvolvida, tem toda a infra-estrutura de uma cidade grande, lojas de grife, restaurantes, boates, até mendigos no sinal :O) A qualidade de vida é alta: as pessoas têm muito dinheiro e o custo de vida é baixo, pode-se dormir ainda de porta aberta nos edifícios e usar jóias sem medo de assalto.
 


Bichus afetivos.
 
Por outro lado, como carioca (nem tanto da gema, já que tenho um pé por lá) é impossível não estranhar algumas coisas. A primeira é a ausência de mar: o ar é seco e eu olhava o tempo todo pro horizonte procurando aquela massa verde e ululante que vejo da minha janela. Todo dia, quando acordo, automaticamente abro a janela e olho para o mar. Nunca tinha percebido isso até ficar sem ele.
 
Outra coisa é a falta de saladas nos restaurantes. Impressionante como carioca tem mania de salada: diversas opções servidas como prato principal, com molhinhos e ingredientes variados. Lá as saladas eram entradas mesmo, modelo saladão, com folhas inteiras de alface, tomates em rodela, azeite e vinagre. No terceiro dia eu implorava pelo único restaurante especializado em saladas da cidade na tentativa de não virar uma bola. Porque as carnes, pastéis e comida árabe são divinos, e baratos. Aliás, lá o chopp está R$ 1,90 (depois disso, nunca mais tomei um chopp na Cobal em paz).
 


Bichus atacados.
 
É na cabeça das pessoas que está a maior diferença. Não existe motel na cidade - todos são na estrada, porque a Igreja Católica se opõe. Ser pobre numa cidade assim é a maior desgraça que pode ocorrer a um ser humano. Você pode ser burro, feio, ladrão, filho-da-mãe, e pra tudo há solução, mas a pobreza é imperdoável. E além de ter dinheiro, é bom que você seja alguém: em Rio Preto, você é irmão, primo, sobrinho, amigo de alguém, ou estará condenado a mofar de tédio sem nada pra fazer.
 
Bem, eu era alguém, e era bom que me comportasse como tal. Óbvio que minha primeira providência foi tomar um porre homérico a cada dia do carnaval. Os "ricos e famosos" comentavam com meus envergonhadíssimos parentes não-menos-society: mas ela quebra tudo, hein? e eu sentia um espírito-de-porco malvadíssimo de sacudindo dentro de mim, na mira dos olhares de reprovação.
 
O que achei hilário dentro desse conceito de ser-alguém é que tudo lá funciona para que as pessoas se sintam realmente exclusivas. Os camarotes e áreas vip são requisitos essenciais para qualquer diversão, e é impensável não tê-los, por mais que qualquer outro lugar da boate pareça muito mais divertido. O que achei mais curioso foi um bloco de rua, divertidíssimo por sinal, para o qual (é claro) compramos abadás. Os abadás não faziam o menor sentido, já que do lado de fora das cordas protegidas por trocentos seguranças só tinha uma meia dúzia de pobres coitados olhando com cara de cão pra aquela gente rica, bonita que sabia se divertir tão bem.
 


Bloco de Rua do Automóvel Clube.
 
Acostumada com a mistura dos blocos do Rio, Vieira Souto e favela dividindo o confete e o asfalto, pensei (depois de levar uma lata na cabeça) que talvez aquela fosse uma forma tão grave de exclusão social quanto acesso à educação, saúde, etc. Nós odiávamos os camarotes com pessoas que não dançavam, concentradas em fazer social, e tínhamos a sensação que todos estavam nos observando - estavam mesmo, por mais que não fôssemos dali e nossa vida não gerasse grande interesse. O mais engraçado é que as verdadeiras celebridades, tipo uma amiga que apresenta o jornal das 7 horas (como o RJ TV daqui) da Rede Globo local, era vista como alguém a quem se conhece há anos, sem o peso que algo assim teria aqui no Rio, onde no mínimo ela seria parada na rua algumas vezes por dia.
 


Alerta: Tótem na chácara da amiga da Nô!
 
Naquele mundo ao qual não pertencíamos, galinhar também não era coisa simples. As meninas de lá faziam suas vidas em função dos caras, que pareciam ser disputados a tapa, aliás num porre quase estapeei uma entrando no clima. Não há vida sem chapinha, sem Louis Vuitton, sem champanhe.
 
Para nós, o fato de os motéis não serem na cidade fazia com que estivéssemos obrigadas a compartilhar a preocupação de "quem era" os caras com quem pretendíamos sair, já que não conhecíamos nada por ali e a ausência de ônibus e taxis à noite nos deixava à mercê da boa-vontade alheia. Minha amiga sair com um cara "desconhecido" para um chopp inocente causou frisson na família: como assim, não sabíamos o sobrenome? Pior ainda quando fizemos grande amizade com os garçons da cachaçaria, e já íamos nos encaminhando para um churrasco na casa de um deles depois do bar. Minha prima nos resgatou, afirmando que ia ser o escândalo do século. O que tornou o programa praticamente imperdível.
 


"Broco du bichu".
 


"Broco du bichu".
 
O carnaval, em suma foi muito divertido. Fizemos o hilário "broco du bichu" (bloco do bicho), que ninguém entendia xongas. Pulei e dancei que nem doida, o carnaval no interior pra mim é o melhor que tem. As pessoas em geral são honestas na vida e nos sentimentos, trabalham, sem essa filosofia de querem-se-dar-bem do carioca. Os amigos da minha mãe são ótimos e trouxeram horas felizes de conversa inteligente. A comida é boa, a bebida é boa, as pessoas são simpáticas e as festas, maravilhosas. Nosso tempo por lá foi deveras agradável, exceto pelo sentimento de inadequação que me fazia pensar em diferenças, em liberdade. Lá me torno bairrista, carioca da gema, flamenguista, bebedora de chopp em boteco, garota de Ipanema, adolescente perdida, coisas que nunca fui por aqui. Diferenças de um mundo ao qual não pertencemos.
 
Autor: Barbara Hansen
 
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